14 de maio de 2026
Por
Redação O Estado CE
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As apostas online são uma realidade em boa parte dos lares brasileiros e movimentam muito dinheiro. Pesquisas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontam que os jogos eletrônicos escoaram R$ 143 bilhões do mercado brasileiro, de 2023 ao início de 2026, transformando-se no principal motivo de endividamento das famílias.
No Ceará, estima-se que o prejuízo seja de até R$ 8,3 bilhões por ano no faturamento do comércio, com a redução de compras no varejo e aumento da inadimplência. “As pesquisas e dados mostram que está tendo um aumento significativo com o comprometimento de renda das famílias com os jogos online e isso está influenciando na capacidade de consumo do seu dia a dia, até de alimentos”, alerta o economista, Ricardo Coimbra.

Visão de quem joga
Seu Arão Pimentel tem 72 anos, muitos deles dedicados a apostas. Ele afirmou que é difícil ganhar, mas segue apostando. “Sempre joguei baralho, jogo de bicho e apostei muito no futebol, principalmente, no meu Ceará e no Corinthians. A gente sempre quer ganhar e joga um pouco mais, mas é difícil ganhar”, admitiu. Quando perguntado se mais ganhou ou perdeu, seu Arão garantiu um empate. “Eu acho que estou empatado, pois nem fiquei rico e nem fiquei pobre e, aproveitando, me dê um palpite”, brincou.
Para a filha do seu Arão, Sarah Pimentel, a dedicação do pai às apostas “roubou” um tempo precioso com a família. “Tirou não só dinheiro, como tempo com a família, tempo de qualidade. Sempre foi um bom pai, carinhoso, não deixando faltar o básico. Mas não lembro de passeios em família, não lembro de ele indo a apresentações na escola, etc.”, lamentou.
Já Nixon Vasconcelos, 52, admitiu que faz apostas online, mas por diversão e sem grandes pretensões financeiras. “É só para me divertir, não se lucra muito. Não quero enriquecer com isso”. Nixon disse estar ciente dos riscos. “Tem que ter muito cuidado, pois tem gente que se vicia, perde muito dinheiro e não aconselho. Antes, eu até investia, mas agora eu fico somente com os bônus. Mas têm muitos que apostam alto”, afirmou.
Visão psicológica
A observação do entrevistado faz todo sentido na visão do especialista em Psicologia Aplicada à Dependência Tecnológica, Magnum Freire Nobre. Para ele, as apostas online geram processos psicológicos complexos. “Mecanismos neurobiológicos de gratificação imediata regem o funcionamento das plataformas de apostas, estabelecendo um cenário de risco severo à integridade mental. Em vez de apenas oferecer entretenimento, essas interfaces estimulam o sistema de recompensa cerebral, por meio de reforços intermitentes, o que desencadeia um padrão de consumo compulsivo. O impacto psicológico das ‘bets’ extrapola o âmbito financeiro e corrói a estabilidade emocional”, alerta.
Já a psicóloga clínica Linda Farias, ressalta os riscos dos jogos online no cotidiano das pessoas, inclusive comparando com dependências químicas. “O uso excessivo das bets faz o sujeito cada vez mais dependente e mina sua situação financeira e social. É quase uma vida paralela. Existe um sujeito que aposta, que está em busca daquela dopamina, e o sujeito familiar, que, muitas vezes, está irritado, depressivo e com medo do futuro, inclusive com incidência de suicídio e outros crimes. A gente entende o vício nas bets como os no alcoolismo, no crack”, observa a profissional.
Rede de apoio
Em Fortaleza, segundo a Prefeitura Municipal, 134 Postos de Saúde estão disponíveis para casos de saúde mental. O atendimento inicial é realizado pelas Equipes de Saúde da Família (ESF), com encaminhamento para os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), quando necessário.
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